Design: Dificuldades da valorização do curso


O título deste post é bem diferente do que eu costumo fazer aqui, mas ele realmente precisa ser empregado no sentido indicativo, pois se trata de um conselho. Diante da intensa criação blogs e da busca por criação de anúncios, logomarcas e templates, por exemplo, muitas pessoas usam seus conhecimentos em Photoshop ou em programas ou sites não profissionais de edição de imagens para exercer função semelhante e unicamente cabível ao profissional de Designer Gráfico.

Tais situações não refletem um problema de hoje. Os chamados “sobrinhos” – “vilões” dos designers há muito tempo, são as pessoas a que os clientes recorrem por serem mais acessíveis, já que muitas vezes não são profissionais, mas pessoas que casualmente sabem fuçar em programas e fazer edições de imagens, e aparentemente, por serem mais próximas, cobram mais barato (ou não). “Pra quê eu vou recorrer a um profissional, se o meu sobrinho sabe fazer isso”? Daí a origem do emprego do tal nome. Hoje em dia, qualquer pessoa que crie uma loja online ou ofereça produtos relacionados à área de design (mais precisamente ao design gráfico) sem serem de fato designers são na verdade "sobrinhos" ou micreiros.
Mas qual o problema de uma pessoa que não é designer criar uma loja de design?

Todo. Os problemas são bastante evidentes, e o principal deles é:

A desvalorização da profissão do designer

Criar uma arte onde se mescla uma imagem já pronta, com um texto com alguns efeitos, retângulos com opacidade, e algumas imagens em formato PNG não faz de ninguém um designer. Saber mexer no Photoshop também não torna ninguém um designer, já que, obviamente, qualquer pessoa pode baixar o programa e aprender a usá-lo. O designer é um profissional de desenvolvimento de projetos gráficos e estuda conteúdos diversos como comunicação visual, história da fotografia, história da arte, serigrafia, tipografia, dentre outros, e para tanto é uma pessoa formada em um curso regularizado legalmente, como a graduação de bacharelado em Design, de duração de cerca de 4 anos.

Ao contrário do que muitos pensam, no curso de Design não se aprende a fazer montagens no Photoshop, a mudar tom de pele, cor de cabelo, etc. É interessante como o senso comum afeta na desvalorização da profissão do designer, como casos frequentes onde alguém que não é designer se descreve da seguinte forma: “não sou designer profissional, mas sei criar artes legais e estou trabalhando com isso”. Ou seja: 

1. A pessoa não é designer, muito menos profissional. 

2. A pessoa tem o senso comum de que “fazer artes legais” pode fazer dela um designer e desconhece o sentido da profissão;

3. A pessoa aparentemente exerce a profissão de designer, mas não é um designer. Viram como o problema é sério?

Tudo porque ainda há um senso comum e falta de conhecimento das pessoas sobre a profissão do designer, sua formação, seus estudos e suas atividades desempenhadas. São muitos os Freelancers, profissionais ou nãoque trabalham com algumas atividades como edições de imagens e etc. por hobbie que fazem um trabalho de qualidade, alguns melhores até de quem fez algum curso, mas o problema está justamente na distorção do que é ser designer e trabalhar com design.

Agora imagine que Pedro Lins é um recém-formado em Administração que aprendeu sozinho a fazer um curativo no seu cachorro lesionado em uma das patas e em seguida criou uma página no Facebook, a Pedro Lins Medicina Veterinária, anunciando seu "trabalho" como "médico veterinário" e a atualizou com fotos de seus curativos já feitos em animais para chamar a atenção dos clientes. Parece inaceitável? Substitua a situação hipotética por uma que envolva o trabalho de um designer e reconheça que tais situações são mais frequentes do que se imagina.
A partir do momento que qualquer pessoa que tenha os mínimos conhecimentos ou conhecimento razoável em edições gráficas cria uma loja com o nome fazendo menção à área de Design e se autointitula designer lidamos com uma situação grave e eminente: pessoas que afirmam serem de uma profissão na qual não foram formadas. Já sabemos que alguns trabalhos dos designers gráficos são menosprezados porque muitos ainda pensam que é um trabalho fácil, que qualquer um pode fazer. Mas quando uma pessoa abre um consultório odontológico e se passa por dentista, ela seriamente é detida por exercício ilegal da profissãoArtigo 47 da Lei nº 3.688 de 03 de Outubro de 1941:

Art. 47. Exercer profissão ou atividade econômica ou anunciar que a exerce, sem preencher as condições a que por lei está subordinado o seu exercício:

Pena - prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de sessenta e um mil e quinhentos reais a cinco milhões de reais. Fonte.

Agora reflitam: Por que se tratando do designer o não cumprimento à Lei e o desrespeito à profissão seriam válidos e passíveis de serem ignorados?

Há uma dificuldade no Brasil quanto à regularização do designer, inclusive o projeto de lei que tinha esse objetivo foi vetado em 2015 pela Dilma Rousseff. Saiba mais aqui.
E como ficariam os projetos de quem não é designer, mas gostaria de publicar trabalhos relacionados à artes gráficas?

Segundo o site Design Culture:

"Neste Projeto de Lei, (PLC) 24/2013, é compreendido como ilegalidade, o profissional usar a denominação designer se o mesmo não atender às exigências para registro profissional (art. 3º). Torna-se também ilegal, caso sancionado, usar a expressão design na denominação de sociedade não empresária ou simples de prestação de serviços (...). Além disso, o fruto do trabalho do designer passa a ser protegido pela Lei dos Direitos Autorais (Lei 9.610/1998).

Adicional à resposta da pergunta acima vale registrar a contribuição do designer gráfico Bruno Porto: 

'Sim, você poderá executar um projeto de design – como um logotipo, um cartaz, um website, por exemplo – desde que não se apresente como designer ou assim credite o trabalho. Você pode fazer um curativo mas não dizer que é enfermeiro, pode construir sua casa mas não se autodenominar arquiteto, por exemplo, se não tem a formação para isso porque isso caracteriza falsidade ideológica, já que não cumpre os requisitos legais para ser um designer. Assim como nas demais profissões regulamentadas, há atividades que põem em risco a saúde – como construir uma ponte, fazer uma operação de rim etc – que só é permitida legalmente a determinados profissionais'".
Mas os serviços que um designer faz não podem ser aprendidos e feitos por uma pessoa sozinha, sem necessidade do curso?

Como dito, um designer é um profissional e para tanto possui formação que o qualifica como tal. É fato que um designer precisa ser uma pessoa criativa, inteligente, e no caso do designer gráfico, apta a formar projetos que muitas vezes precisam do uso de ferramentas digitais como o Photoshop, por exemplo. Mas a formação vai muito além do que o senso comum vê o profissional de designer gráfico, e é repleta de conhecimentos intrínsecos que não estão expostos on-line, em programas de edição, ou acessíveis fora do ambiente acadêmico.

Diante de uma entrevista de emprego para designers ou até mesmo de calouros no curso de Design não são poucos os relatos de pessoas que “tiveram curiosidade em trabalhar com arte gráfica e aprenderam muita coisa por conta própria”. Não se trata de um “dom”, mas de um interesse, de habilidades que são muito úteis para quem quer se tornar um designer, mas que por si só não capacitam ninguém como um designer. Tratando-se de uma profissão, obviamente só é designer de fato quem estuda ou é formado em Design.
Me interesso muito em trabalhar com design, o que devo fazer para me qualificar como um designer?

1. Busque um curso.

Vou citar o meu exemplo: eu mexo com edições de imagens e criação de sites e blogs desde 2009, aos 14 anos. Eu não conhecia a profissão de designer e estou me formando agora em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas. No início de 2016, percebi que ser professora de Ciências não era a minha vocação apesar de eu poder lecionar. Estava na hora de eu abrir meu próprio projeto e de trabalhar boa parte do meu tempo com algo que eu gostasse muito. Saí do meu projeto científico da Universidade e com o dinheiro da bolsa que me restara não pensei duas vezes: Me matriculei em um curso profissionalizante de Webdesigner e Design Gráfico pelo SENAQ - Serviço Nacional de Qualificação.

Mas... Eu não já sabia mexer com HTML e com edições de imagens? Sim, mas isso não faz de mim uma profissional. Ainda com o curso em andamento fui à várias entrevistas de emprego deixar meu currículo e apesar de eu poder escrever e falar que crio sites e projetos gráficos desde os 14 anos e que tenho experiência com isso, é necessário uma documentação, um certificado, uma comprovação, uma qualificação. Portfólios e habilidades são muito bons, mas não suficientes. Afinal, uma empresa sempre vai querer contratar profissionais. 

Há cursos superiores em Design com duração de até quatro anos ou um pouco mais, de Tecnólogos em Design Gráfico (curso superior de menor duração voltado especificamente ao setor de Design Gráfico) e cursos técnicos, como o meu que iniciei e que tem duração de 1 ano e meio. Verifique o que é melhor para você, se é o superior, se é o tecnólogo, o que vai atender melhor as suas condições e interesses, o que é mais acessível, dentre outros fatores (pretendo ingressar no curso de Design por uma universidade Federal para ter uma melhor formação).

2. Estude bastante.

Fique sempre atento às aulas e busque aplicar o conhecimento aprendido. Revisar os assuntos e procurar diversas fontes bibliográficas é bem interessante. Faça uma pesquisa em Bibliotecas Acadêmicas ou livrarias e busque materiais feitos por profissionais que muito tem a lhe acrescentar.

3. Esteja sempre bem informado.

Um profissional nunca para de estudar, muito menos de estar bem informado. Fique atento às novidades no ramo do Design e use a tecnologia ao seu favor. Curta páginas do Facebook como Designimador, SOU DESIGNER, Designerd, e acompanhe sites como Design Zero Um, Design CultureChoco la design, Designerd, Clube do design e Design Inspirador. Vão te ajudar muito!

4. Atualize seu portfólio.

Crie um portfólio on-line e o mantenha sempre atualizado. Mesmo que você não tenha encomendas, faça vários trabalhos de diversos segmentos e publique em seu portfólio, para não só ter um portfólio rico e uma boa demonstração do seu trabalho, como também se aprimorar cada vez mais.


5. Divulgue seu currículo

Uma dica que eu dou é entrar em grupos no Facebook de Designers, seja de cursos universitários, por exemplo. Eles são constantemente atualizados com anúncios de vagas para estágio ou emprego e mesmo que você não for convocado de antemão, seu currículo vai estar disponível na empresa para futuras chamadas. Um dia desses uma garota postou que teve sua vaga garantida em uma empresa cujo currículo ela deixou em 2014. Ou seja, sempre corra atrás das oportunidades e persevere! haha
Como saber se estou lidando realmente com um profissional de designer gráfico?

Além de observar o portfólio e opiniões de clientes, busque saber a qualificação de quem você está pensando em contratar para fazer o design do seu blog, seu cartão de visitas, capa para Facebook e outros produtos. Verifique se tal ofertante disponibiliza seu currículo on-line, onde ele se formou, quais os certificados que possui, etc. Se possível, entre em contato com o mesmo.
A busca por serviços feitos por não profissionais pode muitas vezes parecer mais acessível, mas nunca será a melhor opção. Valorize o emprego dos designers e esteja atento a quem se autointitula designer sem ser de fato um, como também aos preços cobrados e a relação destes com o profissionalismo de quem o faz. Mas e quem trabalha como freelancer e desenvolve projetos muito bons, o que deve fazer?

Se você trabalha com produções de artes gráficas, edições de imagens, ou até mesmo criação de Templates e afins, como freelancer ou por hobbie, deixe bem claro sua posição e esteja atento ao emprego indevido das palavras design ou designer. Não é bobagem se tratando da desvalorização de uma carreira e que é iminente que ninguém se autointitularia médico sem de fato ter feito Medicina e ter estudado bastante para isso. Capiche?

comentário(s) pelo facebook:

7 comentários

  1. Nossa, cara, como eu entendo esse texto. Minha área nao é design, sou fotógrada e por um tempo trabalhei como tradutora. O que tem de gente que se diz fotógrado profissional por ter uma câmera profissional. Tem gente que tem câmeras bem melhores do que a minha mas nao conseguem fazer o que eu faco com uma câmera automática, porque nao estudou, nao praticou o bastante. Nao digo nem estudar numa universidade, digo estudar as técnicas, aprender um pouco com outros profissionais. No fim, quem vê de fora acha que você está cobrando muita grana por um trabalho que qualquer um pode fazer, sendo que você investiu muito tempo e grana pra aprender algo. Nao me considero uma super fotógrafa, tem profissionais mil vezes melhores do que eu, mas eu reconheco meus limites e sei o que posso ou nao fazer. Mas tem gente que compra uma câmera cara, vê uns vídeos de edicao e já acha que é tao fotógrafo quando o cara que está 20 anos se aprimorando.

    Com traducao é a mesma coisa. "Pra que vou pagar um tradutor se meu sobrinho fala inglês fluente?" Depois querem te pagam uma merreca pra fazer uma revisao de uma traducao bizarra e porca.

    Ai desculpa o comentário gigante, mas é um assunto que dá pano pra manga rs.

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    1. Está tudo bem em deixar comentário gigante, hehe :D

      Essa discussão pode ser estendida ainda mais... olha só quantas profissões desvalorizadas! Claro que cada um de nós temos nossas competências, que apresentamos mesmo sem ter ingressado num ambiente acadêmico, mas querer submeter tudo como se fossem "dons" e ignorar que existem profissões e que para tanto é preciso estudo, formação, e n conhecimentos é um fato muito triste.

      Mais triste ainda é pensar que é preciso se comparar ao trabalho de médicos, por exemplo, para que as pessoas consigam captar a diferença entre um profissional legalizado e um que não é. Só que há muitas barreiras como o senso comum e a própria desvalorização das pessoas, que infelizmente estão aí há muito tempo sendo disseminadas cada vez mais.

      O que fazer? Ainda acho difícil superar toda essa ignorância e desconhecimento que existe, mas a nossa parte de conscientizar as pessoas devemos fazer!

      Obrigada por expressar sua opinião <3 Beijos!

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  2. Bom, quando vi a chamada do texto eu pensei "la vem balela". Ok, me enganei.
    Você super resumiu tudo. O que vemos direto nas comunidades de blogueira é gente vendendo serviço gráfico por 10, 20 reais. E serviço de qualidade questionável. E PIOR, a pessoa se quer sabe diferenciar a palavra DESIGN com DESIGNER. Quantas vezes já não recebi inbox gente fazendo propaganda de serviço e escrito tudo errado?
    Eu sou formada em Design Gráfico e estou quase no último ano de Publicidade e Propaganda, então sim, eu entendo do assunto e trabalho com isso, então eu sei o que envolve um trabalho gráfico e sim, saber mexer no photoshop não te faz um profissional. Inclusive, no Design a gente mal usa o photoshop, haha.
    Com essas coisas de "sobrinho", me lembro de um dia que fui oferecer um trabalho profissional, e mesmo um preço simbólico, e como era acima do que se é cobrado por ai, recebi uma desdenhada tão grande e a pessoa nunca mais falou comigo. É foda, sabe? Eu vejo gente fazendo trabalhos tão porcos, sem qualquer base, conceito, diagramação e ainda conseguindo um dinheiro e se achando a última bolacha do pacote. Enquanto eu que me esforço para dar uma solução (o design se baseia nisso: soluções) que sejam o mais adequadas ás necessidades tomo na cara.
    Esse assunto dá muito pano pra manga, como comentado acima, então vou encerrar por aqui, haha.

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    1. Tinha acabado de escrever o post e estava com sono quando fiz a chamada, talvez tenha ficado mal expressa e confusa pra quem não leu o texto, mas tudo bem, faz parte, rsrs.

      Esqueci de mencionar isso, quanta gente não escreve "eu sou design", "quero fazer designer"? Mas a tecla do senso comum bate muito nisso e as pessoas acabam sendo "vítimas" de pensamentos assim. Como pensar que quem é designer passa o dia todo na faculdade estudando a editar no Photoshop, quando nunca é assim hehe.

      No meu caso, eu pedi para que o pessoal do maior evento científico da universidade me renumerasse, já que eu estudava muito para fazer os projetos e precisava do dinheiro, e o que fizeram: me deixaram de lado e foram criar artes no Photoscape e também usando WordArt! O público até criticou uma arte que tinha sido feito com WortArt e comentaram "não dá para acreditar que não estão levando o maior evento científico da universidade com seriedade". É uma pena que não conseguem entender que o Designer é um profissional, assim como não abrem mão de pagar o eletricista do evento ou até mesmo o cara que vende picolé!

      São muitas as questões as serem levantadas e realmente, dá pra lançar um livro hahaha. Mas muito obrigada por expressar sua opinião e tornar o post ainda mais completo!

      Um beijo <3

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    2. NOSSA! Que absurdo isso, sério. Pelo menos tomaram um pequeno puxão de orelha. Já vi uma "designer" fazendo as peças no word. Me doeu tanto o coração. Haha

      beijinhos

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  3. Muito legal esse texto Ju! Eu fiz alguns cursos de marketing digital e por conta disso acabei me interessando pelo design gráfico, agora estou cursando. Vejo muita "arte" por aí feita pelo canva e que a pessoa se intitula designer. O nosso mercado infelizmente está cheio de micreiros então acaba prostituído digamos assim, né? Sempre que um cliente me pergunta falo que sou estudante de design, acho bem legal deixar esclarecido até pra passar credibilidade. Amei o texto, muito esclarecedor!
    Beijos

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    1. Fico feliz que tenha gostado! É muito interessante quando apreciamos algo e vamos atrás de nos profissionalizar a respeito! Infelizmente no quesito Design acaba havendo essa banalização e "prostituição" de certa forma e poucos entendem como isso pode afetar o trabalho de quem é formado.
      Parabéns pela sua transparência e preocupação com o clientes! São qualidades imprescindíveis para um designer <3 Sucesso no seu caminho!
      Beijos <3

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